"O TONTO QUE SE PERDEU EM ÁFRICA", Uma Crónica Sobre a Cidade de Gurué, na Zambézia


O autor chama-se Duarte Caires, de nacionalidade Portuguesa e que teve a oportunidade de Visitar Moçambique há um tempo. 

Em Moçambique, o destino escolhido por Duarte Caires foi o Distrito Turístico, antes denominado "Vila Junqueiro", agora Gurué. Chegado nas terras do Chá, o Autor acampa-se no pátio do Centro Polivalente Leão Dehon, onde passou a lesionar a cadeira de Português aos estudantes da Escola Básica e Industrial de Gurué. Depois de algum tempo, o português voltou à sua terra natal e a semelhança do que acontece com vários outros que ousam em visitar a terra montanhosa de Gurue, ele levou consigo memórias.


Duarte Caires, cravou suas memorias sobre a cidade de Gurué numa crónica intitulada "O TONTO QUE SE PERDEU EM ÁFRICA", publicada no Jornal da Madeira, onde ele é colunista. Leia o texto inteiro logo abaixo e deixe seu comentário:

[Alta Zambézia. Moçambique. Estávamos em março e atravessar fevereiro fora um autêntico calvário. Uma via-sacra completa de suor e preocupações. Catorze estações de calor e tormentos inexplicáveis. Março é o último mês da época das chuvas, a mais quente no Trópico de Capricórnio, e aquele em que quase sempre eu apanhava uma constipação à maneira.

Naquele ano, além da constipação, andava sem dinheiro. Depois, a minha irmã transferiu 216 euros para a minha conta – este foi o meu rendimento mensal durante muito tempo em África – e eu corri para a cidade, onde havia dois bancos, mas as caixas de ATM não estavam a funcionar. Estiveram avariadas quase duas semanas e eu, que só podia levar o dinheiro desse modo, fiquei extremamente enervado, porque vivia numa palhota com a minha ex-companheira e queria à força melhorar a ementa diária.

– Andas a comer como um macaco, não é verdade? – Disse-me um amigo italiano. – Anda lá, vamos almoçar na cidade. Desta vez, eu pago. Traz também a tua preta.
Eu fui, mas ela não nos quis acompanhar. Claro que não e eu compreendia bem porquê. Assim, de repente, o italiano era um tipo muito difícil. Não era qualquer um que o aguentava, embora o seu coração fosse grande.

Os dias estavam extremamente quentes. O calor era sufocante, demasiado húmido. Era, de facto, insuportável estar dentro de casa e eu andava esmagado pela preguiça. O italiano, porém, dizia-me que o “pensamento de vadio” era a pior das doenças e aconselhava-me a procurar uma cura, que podia muito bem passar pela toma de vários banhos de água fria ao dia.

– Calma! – Respondia-lhe. – O tempo é nosso!

Mas, em boa verdade, eu não sabia ao certo o que queria dizer com isto. O tempo é nosso… Que disparate!

– Eu já vi que passas a maior parte do tempo sozinho – Dizia-me ele. – Não fazes outra coisa que não seja conversar com a tua sombra, enquanto esperas que a preta regresse do trabalho e te preste alguma atenção, coisa que ela não sabe fazer da maneira que tu queres. Ela não é branca. Ela é preta. Mete lá isto na cabeça. Ela é uma preta do mato. Como podes amparar ali a tua miséria?

– Eu quero acreditar que é possível.

– O importante é que seja verdadeiro, não possível – dizia-me.

– Eu quero que seja verdadeiro – respondia-lhe.

– O que se passa é que tu queres ser generoso, mas falta-te o fôlego.

Então, eu calava-me e era como se estivesse a ouvir a voz da minha consciência. Sim, aquela era a voz da minha consciência. Ela descia na cacimba das montanhas sobre a cidade. Atravessava plantações de chá, eucaliptais, machambas de milho e mandioca. Cruzava estradas de terra batida, vastas extensões de mato e capim, bairros inteiros feitos de tijolo mal cozido e chapas de zinco. E entrava em mim, líquida e acutilante como a água do Licungo, um rio que eu sei muito bem onde nasce – a minha consciência.

Hoje, decorridos vários anos após o regresso, começo a pensar que todas as memórias que tenho de África, dos lugares e das pessoas e dos acontecimentos, mais não são do que o eco de uma voz inexistente. Tudo o que é claro e límpido e tudo o que é esfumado e efabulado, tudo, tudo me parece já uma voz sem boca, uma alma sem corpo, um nada sem ser.

O italiano deixou passar algum tempo em silêncio. Depois, disse:

– Não és o primeiro tonto que se perde em África. ]

Share on Google Plus

About Musika Nova

Se me conheces com base no meu passado, permita-me que eu me apresente novamente!